Inteligência emocional em momentos de caos

Participação especial da Dra. Monique Mistura


Na live de segunda-feira (06/07) convidamos a Dra. Monique Mistura, psicóloga especializada em Sociopsicodrama, para um bate papo sobre inteligência emocional no momento em que estamos vivendo hoje.

Fabiano:

Seja bem vinda Monique!

A Monique atua na área de psicologia e já tivemos a oportunidade de trabalhar juntos em alguns projetos e empresas de nível nacional. E quando estávamos discutindo a pauta dessa semana, pensamos em inteligência emocional e lembrei de imediato da Monique.

Monique:

Conheço o Fabiano de longa data, aliás queria falar a vocês que devo muito da minha carreira ao seu trabalho, muitos pontos foram melhorados e desenvolvidos graças ao Fabiano, presenciei transformações dentro de empresas por conta das consultorias que ele prestou e foi assim que nos conhecemos.

Atuei como gerente de RH durante muitos anos e agora sou professora de psicologia voltada a concursos públicos, e sendo psicóloga, também atuo no atendimento de pessoas e empresas no âmbito de inteligência emocional.

Fabiano:

Como você vê esse momento em que todos foram pegos de surpresa? É uma gestão de crise, certo? Gestão de crise na sua carreira, posicionamento, equipe e negócio.

Como você está vendo a transformação forçada que todos estão passando? Qual o impacto disso nas emoções e na psique das pessoas?

Monique:

É importante a gente notar, como o Fabiano mesmo falou, que todos foram pegos de surpresa, então o lado bom disso é que todos estão nessa juntos. Os empreendedores pequenos, grandes, os MEI’S, autônomos, todos foram afetados em maior ou menor grau.

Nós sabemos que toda crise gera oportunidades porque ela mexe com alguns valores fundamentais: a previsibilidade e a segurança. São dois pilares que nós seres humanos buscamos instintivamente.

Fabiano:

Essa é uma chave Monique. O ser humano busca segurança e a previsibilidade, que é saber qual será o dia de amanhã. São muitas questões: não sei se terei um emprego amanhã, não sei se vou faturar, se meu negócio estará de pé. Isso já confronta diretamente a previsibilidade.

Monique:

Nós buscamos esses pilares não só nos negócios, mas também na vida, pois buscamos um parceiro, alguém que nos traga segurança, pessoas que a gente sabe o que esperar, e uma série de relações que estabelecemos na vida.

Podemos falar também sobre a diferença entre emoção e sentimento, muitas pessoas confundem ou pensam que é a mesma coisa, mas na verdade uma crise como essa mexe muito mais com as nossas emoções que com os nossos sentimentos. Emoções são sentimentos mais fugazes, pouco duradouros e que nos mobilizam em alguns momentos. Já o sentimento é aquilo que você sente por seu cônjuge, filho, amigo, é algo duradouro. E a crise mexe muito com nossas emoções e com aquelas coisas que nos desestabilizam e fazem o coração acelerar.

Então nós temos sim necessidade, nesses momentos de caos, de desenvolver nossa inteligência emocional, ou seja, saber lidar com nossas emoções, com esses sentimentos fugazes que surgem no momento de instabilidade e falta de segurança.

Fabiano:

Nosso bate papo tem essa espinha dorsal, a inteligência emocional dentro deste momento de caos que estamos vivendo. Monique, qual o seu conceito de inteligência emocional, porque com o advento do coaching e a popularização desse segmento, se fala muito de inteligência emocional e eu lembro que o primeiro livro que li sobre o assunto, há uns 12 anos atrás foi do Daniel Goleman. Para nós sintetizarmos, na sua visão o que é a inteligência emocional?

Monique:

Bom, este termo como você bem lembrou foi primeiramente cunhado por Daniel Goleman, que é inclusive um ganhador do prêmio nobel e psicólogo que popularizou este conceito de inteligência emocional nos anos 80. No livro Inteligência Emocional, Daniel cita que o que diferencia o sucesso do insucesso das pessoas é a capacidade delas de ter e desenvolver inteligência emocional, e aí dentro disso a primeira coisa que gostaria de elencar é que temperamento não é destino. Então se você é uma pessoa que se considera muito impulsiva, destemperada, raivosa e que não tem controle de suas emoções, saiba você que isso não precisa ser o seu destino para o resto na vida, nós podemos manejar essas emoções e aprender a lidar com elas.

O primeiro passo é saber identificar nossas emoções, quando você começar a sentir uma emoção já racionalizar e conseguir identificá-la. Este é o primeiro pilar da inteligência emocional.

Não podemos gerenciar nada que não conhecemos, então primeiramente precisamos conhecer as nossas emoções.

Fabiano:

Perfeito! A gente não gerencia o que não conhece. Muitos estão sendo atropelados pelo próprio negócio porque não o conhece, assim como a própria carreira, emoções e estão sendo atropelados por tudo isso.

Monique:

Por que uma criança pequena chora quando quer alguma coisa ou quando sente dor? Porque ela desconhece a emoção que está sentindo, é a maneira que ela tem de se expressar. Se nós pegarmos nossa criança interna e trouxermos para vida adulta, vamos notar que isso ainda acontece com muita frequência no mundo empresarial.

Muitos adultos ainda fazem como aquela criança birrenta, que na falta de repertório e linguagem para falar, simplesmente reagem. Então precisamos muito conhecer nossas emoções, saber identifica-las e conseguir a partir daí gerenciar essas emoções. Isso é inteligência emocional!

Fabiano:

Assisti uma palestra de uma psicoterapeuta e ela disse o seguinte: “Quando você era pequeno e ficava com raiva do seu irmão ou amigo, você jogava o brinquedo na cabeça dele. Agora você cresceu, o que você faz quando fica com raiva?”. Quando falamos com empreendedores e empresários podemos notar comportamentos infantis, exatamente por conta da falta de gerenciamento dessas emoções.

Monique:

Exatamente, sermos capazes de identificar, dominar e transformar algumas emoções que surgem. Temos sempre alguns gatilhos, para refletirmos:

– Quais situações me geram raiva?

– Quais situações me geram constrangimento?

– Quais situações me deixam eufórico?

Isso no meio empresarial deve ser muito observado. Pude presenciar em algumas situações emoções exacerbadas, não só de pessoas pouco preparadas ou inexperientes, mas de gestores e donos de empresas, pessoas que nós imaginávamos que deveriam ter um controle emocional, quando não, pois essa é uma questão que permeia todos nós, independentemente da posição.

Fabiano:

Sim, isso é muito ruim e mais comum do que muita gente imagina. Muitas vezes o sujeito cresceu na carreira, se tornou bem sucedido profissionalmente, e isso não quer dizer que o fato de ser bem sucedido nos seus negócios quer dizer que ele seja bem sucedido nas suas emoções.

Monique:

A falta de controle emocional de líderes e gestores compromete toda a equipe. Quando você tem por exemplo a situação de um líder instável emocionalmente, todos os dias quando o subordinado acorda ele vai para o trabalho sem saber o que esperar desse líder, como essa pessoa pode então produzir e trabalhar?

Realmente ter um controle emocional é uma coisa muito interessante não só para nossa vida pessoal como também profissional. Conheço pessoas que deixaram de ser promovidas ou ter um sucesso maior na carreira, de abraçar oportunidades, justamente porque não detiveram controle.

Fabiano:

Monique, na maioria das vezes as pessoas confundem muito alteração de humor e emoções com bipolaridade. Qual a diferença entre os dois casos?

Monique:

A diferença é brutal! A bipolaridade, transtorno afetivo bipolar, é um transtorno de humor relativamente grave, um quadro psiquiátrico que exige tratamento e acompanhamento profissional. Os critérios diagnósticos de um transtorno bipolar, podem ser citados em uma pessoa que passa por períodos de euforia e períodos depressivos, não é uma transição que ocorre durante um dia, no caso de acordar eufórica e dormir deprimida. O portador de transtorno afetivo bipolar passa meses em depressão, oscilando com quadros de euforia e emoções exacerbadas.

Hoje em dia existe uma tendência de querer diagnosticar tudo e todos e medicalizar todas as emoções, e não é assim, uma pessoa que tem alterações de humor ou carência de controle emocional, não é uma pessoa bipolar. São coisas muito diferentes.

Então a tendência é que aquela pessoa com alterações de humor frequentes em sua empresa seja apenas desiquilibrada ou não faz gestão de suas emoções, mas não uma pessoa com transtorno afetivo bipolar, que é um quadro clínico realmente mais grave.

Fabiano:

No caso de alguém que esteja se identificando com o que estamos falando, qual é na sua visão o tratamento ou tipo de ajuda que essa pessoa precisa?

Monique:

Provavelmente essa pessoa instável que oscila muito durante o dia de forma imprevisível, não sabe fazer gestão das próprias emoções. Primeiro ela não sabe identificar o que está sentindo, tanto que muitas vezes ela é questionada sobre o que está sentindo, de onde vem esse sentimento, qual foi a causa e ela não sabe responder, somente reagir. Então essa pessoa está muito mais na defensiva reagindo ao ambiente do que fazendo o próprio ambiente. Quando estamos apenas reagindo ao nosso meio, não podemos transformar este meio. Não somos capazes de inovar, buscar soluções, buscar crescimento e sucesso profissional, por estarmos em uma posição reativa.

Por isso nomeie seus sentimentos e saiba identifica-los. É um trabalho que exige autoconsciência e autoconhecimento, que são a chave de tudo.

Fabiano:

Um empreendedor, gerente, gestor, empresário, um homem ou mulher de negócios, já lidam com pressões e desafios pertinentes ao negócio e paralelo a isso precisam administrar suas emoções, por isso desenvolver a inteligência emocional é crucial. Infelizmente, ou felizmente, com a popularização do coaching no Brasil, muitas pessoas estão se auto intitulando terapeutas. Precisamos ter muito cuidado quanto a isso, como você mesma disse, a tendência hoje é que saiam diagnosticando as pessoas. Como você vê a atuação do coaching quanto psicoterapeutas?

Monique:

Realmente é um mercado um pouco complicado, nós psicólogos atuamos clinicamente na gestão das emoções em um setting adequado, tanto nas empresas quanto nos consultórios e isso é feito de maneira bem individualizada.

A gestão de emoções, vamos colocar assim, não é uma atividade privativa de nós profissionais da área da saúde mental, então algumas pessoas que não tem formação em psicologia desempenham trabalhos muito bons desde que sejam extremamente qualificadas e que saibam o que estão fazendo. Às vezes você vai começar a “cutucar” a ferida e muita coisa pode aparecer, é necessário ter muita cautela quanto a exposição para preservar o sigilo e individualidade das pessoas.

Quando falamos de sentimentos e emoções, falamos de algo que pode sair do controle.

Fabiano:

Monique, sei que algo não me faz bem e não tenho maturidade para lidar com este algo. Bloquear ou restringir algumas informações e atitudes também pode ser considerada inteligência emocional?

Monique:

Sim! Procure ter um direcionamento de vida e carreira mais voltado para aquilo que te faz bem. Se você de repente não está em condições de lidar com algumas situações, por não ser o momento conveniente ou por não ter tido a oportunidade ainda de lidar com as questões que te incomodam, então simplesmente, por enquanto, procure de alguma maneira evitar essas questões.

Agora, o ideal realmente é que possamos enfrentar nossas dificuldades. A melhor forma de desenvolver a inteligência emocional é conhecendo suas emoções, saber identifica-las e diferenciar uma emoção de um sentimento.

Fabiano:

Estamos vivendo um cenário de caos na economia e no mercado, e sabemos que o caos ataca os dois pilares que você citou no começo. De forma prática, quais dicas você pode elencar para quem é empreendedor e gestor para fazer um bom gerenciamento de suas emoções.

Monique:

Dica número 1: Faça uma avaliação do que te levou na situação que você está hoje. Revisite seu passado. Exemplo: Sou empreendedor e neste momento estou em processo de falência. Quais decisões você tomou no passado que te fizeram chegar no momento que está vivendo hoje?

Faça uma análise empresarial e emocional.

Dica número 2: Nós estamos vivendo em um mundo digital e online. Esse universo tem nos trazido exigências como profissionais e não podemos depender exclusivamente de uma única fonte de renda. Analise quais habilidades e dons você tem que possam fazer com que você tenha uma renda extra e que enfrente o momento de crise com mais facilidade e satisfação.

Dica número 3: Nunca tome decisões precipitadas. Nunca decida nada quando estiver: muito triste, muito feliz, muito desesperado ou muito eufórico. Por que você tende a tomar decisões ruins nesses momentos.

Uma expressão em inglês diz “sleep on it”, uma tradução ao pé da letra significa “durma sobre isso”. Se você tem uma decisão grande para tomar, durma, se afaste e tenha tempo para tomá-la.

Fabiano:

Monique, agradeço imensamente sua participação e por ter compartilhado informações que podem agregar no momento em que estamos vivendo.

Monique:

Eu que agradeço, me desenvolvi muito profissionalmente com a ajuda do Fabiano e também presenciei o crescimento e desenvolvimento de várias empresas e posso afirmar que vocês estão em ótimas mãos.